CrÃtica: Maus
- Iuri Biagioni Rodrigues
- 18 de out. de 2022
- 4 min de leitura
Atualizado: 2 de dez. de 2023
Os horrores do holocausto retratados de uma maneira diferente e inteligente
Por: Iuri Biagioni Rodrigues

Maus é uma Graphic Novel lançada originalmente entre 1980 e 1991. O roteiro e os desenhos são do quadrinista sueco radicado nos EUA, Art Spiegelman. Posteriormente, em 1986, a história foi compilada em um volume intitulado Maus - A História de um sobrevivente e, em 1992, é lançado Maus II - E aqui meus Problemas Começaram. A obra está na lista dos melhores e mais importantes quadrinhos de todos os tempos. Não é à toa que venceu o Prêmio Pulitzer, principal prêmio do jornalismo, em 1992. (Obs: Maus foi o primeiro quadrinho a vencer este conceituado prêmio).
Maus conta a história de como os pais de Spiegelman sobreviveram ao holocausto. Vladek, pai do autor, recebe o destaque, pois Anja, mãe do quadrinista, já havia falecido quando ele decidiu produzir esta história. Além disso, o diário em que ela contava sua história de vida foi destruÃdo por Vladek.
O quadrinho apresenta duas linhas narrativas: uma no passado, onde vemos os acontecimentos da perseguição aos judeus durante a Alemanha Nazista e outra que se passa na época em que Spiegelman produzia a HQ, onde vemos como foi o processo de entrevistas, a pesquisa histórica, os conflitos de Art com seu pai, as conversas de Art com sua esposa Françoise Mouly, os perÃodos de maior criatividade, a falta de ideias, a personalidade difÃcil de Vladek e a maneira como um sobrevivente relembra o seu passado de dias tão perturbadores. Deste modo, Maus é, ao mesmo tempo, uma história biográfica e autobiográfica, pois além de retratar elementos da vida de seus pais, a história traz elementos da vida do próprio autor e "bastidores" de sua criação.


Para contar sua história, Art Spiegelman utiliza-se do Antropomorfismo. Assim, os judeus são representados como ratos (vale destacar que maus é rato em alemão), os alemães são gatos, os poloneses não judeus são porcos, os estadunidenses são cachorros e um comunista francês é representado como um sapo. Sobre isso, Daniele Barbieri, em seu excelente livro "As Linguagens dos Quadrinhos", diz que: "os animais humanizados conseguem dar um tom de crepuscular cotidianidade e individualidade a um drama cósmico como o holocausto judaico da Segunda Guerra Mundial. Desse modo, Spiegelman nos permite reviver aquela história, despojando-a de toda a retórica que se lhe acumulou em cima com o tempo." O autor italiano quer mostrar que a caricatura e representação dos personagens como animais são utilizados como instrumento para rebaixar o nÃvel emotivo, a um quadrinho fortemente dramático.
Portanto, apesar dos fatos narrados serem verdadeiros, verossÃmeis e do roteiro ser sombrio, a história é contada em um estilo "cotidiano" que desdramatiza as tragédias que vemos ao longo das páginas. Spiegelman não apela para emocionar os leitores. As emoções surgem sozinhas e naturalmente.

Na obra vemos acontecimentos históricos conhecidos como o antissemitismo, a propaganda nazista, o expansionismo alemão, a ação da Cruz Vermelha, os carimbos de passaporte de judeus no estádio de Sosnowieck (Polônia), a violência e tortura dos campos de concentração (especialmente em Auschwitz), o papel dos Kapos (prisioneiros encarregados pela SS de vigiar o trabalho dos outros presos nos campos de concentração), entre outras coisas.

A retratação de Vladek Spiegelman, protagonista e narrador da história, é muito interessante, pois ele teve uma trajetória muito difÃcil, sobreviveu ao holocausto, é valoroso e destemido. Porém é uma pessoa dura, sovina, mesquinha, vive reclamando de Mala (sua segunda esposa), tem um relacionamento conturbado com o filho e é racista (sim, mesmo depois de todas perseguições que sofreu por parte dos nazistas, ele trata os negros com discriminação. É uma crÃtica que Art fez questão de colocar na trama). Apesar desses defeitos, é fácil se simpatizar com este personagem. Ele tem momentos cômicos que ajudam a tornar a obra mais leve.
Agora, partindo para termos técnicos, os desenhos são simples, mas bastante expressivos (destaque para as expressões faciais) e cumprem muito bem seu papel na narrativa. O uso do preto e branco ajuda a evidenciar a morbidade do holocausto.
Sobre Maus, o historiador e crÃtico literário Hayden White disse: "Maus representa uma visão particularmente irônica e aturdida do Holocausto, mas é, ao mesmo tempo, um dos mais tocantes relatos narrativos dele que conheço [...] essa comédia é uma obra prima de estilização, figuração e alegorização." (Trecho do capÃtulo Enredo e verdade na escrita da História do livro A História Escrita: teoria e história da historiografia organizado por Jurandir Malerba).
Concluindo, Maus não é quadrinho para ler e se divertir, é um quadrinho para refletir. Além disso, não é somente uma história em quadrinhos, é, acima de tudo, um documento histórico, um testemunho e um manifesto contra o fanatismo, irracionalidade, mentira, violência e genocÃdio a que chegaram os nazistas na sua perseguição aos judeus.
Maus deveria ser lido por todo mundo, principalmente neste momento em que, infelizmente, ideias neonazistas estão ganhando força ao redor do mundo.
Para quem só se importa com números:
10/10
Prêmios vencidos por Maus: (São muitos prêmios, então devo ter esquecido algum)
Revista Present Tense - Prêmio Joel H. Cavior (1987): livro de ficção
Festival Internacional de quadrinhos de Angoulême (1988): Melhor álbum estrangeiro (Maus I)
Festival Internacional de quadrinhos de Angoulême - prêmio religioso (1988): Testemunho cristão
Urhunden Prize (1988): Melhor álbum estrangeiro (Maus I)
Adamson Awards (1988): Melhor cartunista (Art Spiegelman)
Max & Moritz (1990): Prêmio especial
Festival Internacional de Quadrinhos de Barcelona (1990): Melhor álbum estrangeiro (Maus I)
American Book Awards: Notável realização literária (Maus completo)
Eisner (1992): Melhor Graphic Novel (republicação) - (Maus II)
Harvey (1992): Melhor Graphic Novel (republicação) - (Maus II)
Pulitzer (1992): Categoria especial em literatura
Los Angeles Times Book Prize (1992): Ficção
Festival Internacional de quadrinhos de Angoulême (1993): Melhor álbum estrangeiro (Maus II)
Urhunden Prize (1993): Melhor álbum estrangeiro (Maus II)
Sproing Award (1993): Melhor álbum traduzido
Festival Internacional de Quadrinhos de Barcelona (2002): Melhor álbum estrangeiro (Maus II)
Dados da HQ:
Roteiro: Art Spiegelman
Arte: Art Spiegelman
Editora original: Raw / Pantheom Books
Editora no Brasil: Quadrnhos na Cia (selo da Companhia das Letras)
Tradução: Antonio de Macedo Soares
Revisão: Adriana Cerello Renato Potenza Rodrigues
Páginas: 296