Crítica | Pinguim – 1X06: "Cúpula de Ouro" (2024)
- Igor Biagioni Rodrigues
- 3 de nov. de 2024
- 6 min de leitura
Não… O pé de cabra não!
Por Igor Biagioni Rodrigues.

Contém spoilers!
O episódio começa com uma narração em off do Pinguim, e através dela, somada às imagens sequenciais de Gotham, percebemos uma certa passagem de tempo, indicada pela presença de neve na cidade (alô, The Batman 2!). Vemos a casa dos Falcone iluminada, até que a câmera desce e mostra o subterrâneo escuro de Gotham, local onde Oz controla suas atividades relacionadas à produção de Bliss. Oz está nas sombras, tanto literal quanto figurativamente; debaixo das ruas da cidade, ele controla, às escuras, a nova droga. A produção brinca mais uma vez com a imagem do homem-morcego: se antes Pinguim dirigia pela cidade com seu "Pinguimóvel", agora Victor perambula pelos túneis da cidade em uma moto.
Infelizmente, a construção desse mini-império do crime a partir de dois baldes de cogumelo precisou ser feita por meio de uma elipse narrativa. Mas, compreendo que essa aceleração, assim como ocorreu no episódio passado, se deve ao fato de a produção ser uma minissérie e não ter tanto tempo para desenvolver todos os aspectos, priorizando, de forma acertada, o desenvolvimento dos personagens acima das situações.
Enquanto o subterrâneo da cidade é frio, a casa dos Falcone está quente, como podemos ver pela relação de Sofia com seu antigo psiquiatra, Julian Rush. Em uma rápida cena que sugere práticas BDSM, vemos a dominação de Sofia sobre o médico. No entanto, a cena seguinte é a mais interessante: Sofia abriga seu novo aliado, Salvatore Maroni, e se surpreende ao ver os costumes dele — ele cozinha para si e para os outros, e até mesmo reza. A partir daí, surge uma relação quase paternal entre os dois. Unidos pela vingança contra Oz, Sofia reconhece em Maroni alguém que faz muito mais pela família que perdeu do que pelo controle do submundo de Gotham.

Em Crowpoint, o frio e a falta de luz pioram a situação de Francis, o que obriga Oswald a ameaçar um vereador com um alicate, quase como um verdadeiro vigilante social, para que a prefeitura pare de desviar a energia para os mais ricos. Mas esse não é o único problema no bairro: Victor é confrontado por Squid e toma uma decisão sem volta ao matá-lo. Essa é a virada definitiva de Victor para o lado do crime, como fica claro na cena em que ele tenta limpar o sangue de seu tênis — uma mancha que ele nunca conseguirá apagar, por mais que tente. Oz, muito esperto, sabe manipular os outros ao seu favor. Já esteve no lugar de Victor antes e o consola de forma paternal, dizendo que matar ficará mais fácil com o tempo. Ainda eleva o ego do garoto, dizendo, no início do episódio, que aquele momento será histórico, colocando o nome de Victor ao lado do seu ao dizer que todos falarão de Victor Aguilar e… Oswald Cobb. Neste momento, o título da série aparece: Pinguim. Percebam como Oz hesita ao dizer seu próprio nome antes de “Pinguim” aparecer na tela, sugerindo que ele está começando a aceitar que não é mais Oswald Cobb, mas sim o Pinguim.
Enquanto isso, Sofia e Salvatore, em uma busca infrutífera por Oz, começam a ordenar a execução das gangues que vendiam Bliss. Mas Pinguim sabe o que faz; ciente de que o importante é a droga circular e fortalecer seu próprio nome, ele começa a distribuí-la gratuitamente. Sofia e Maroni continuam sua busca, e novamente temos um momento "pai e filha": após Salvatore se enfurecer ao descobrir que um homem supostamente sem família lhe tirou a dele, Sofia lhe entrega um taco de golfe para que ele alivie sua raiva, demonstrando respeito e empatia pelos sentimentos de seu novo aliado. Nesse momento, Sofia encontra uma foto de Eve.
Oz volta ao apartamento em Crowpoint e encontra sua mãe pedindo ajuda na banheira. Embora peça ajuda, ela solicita que Oz não a olhe, tentando manter sua dignidade apesar de tudo. Dignidade que logo descobrimos ser a coisa mais importante para Francis. Em uma das cenas mais emocionantes, Colin Farrell e, principalmente, Clancy Brown (cuja atuação lembra a intensidade de Anthony Hopkins em O Pai) discutem sobre o futuro de Francis, que, em um momento de clareza diante das suas doenças, pede ao filho que a mate caso ela perca totalmente a consciência. Oz diz que não conseguiria fazer isso porque a ama. Francis o chama de covarde e afirma que ele é capaz, sim. É triste que, numa das poucas vezes em que Oswald é sincero consigo e com os outros, ele é rejeitado. Francis não quer Oz; ela quer o Pinguim. Em seguida, temos outra belíssima cena: Oz ajuda a mãe a se maquiar e a se arrumar (recuperando a dignidade), afastando-se momentaneamente da realidade, embora suas unhas, sujas pela dureza da vida, tragam o peso da situação — uma escolha de enquadramento brilhante.

Sofia então vai atrás de Eve, que não aparenta surpresa com sua chegada. Eve diz que mandou uma de suas garotas levar Sofia até ela para ganhar um dinheiro extra (não sabemos o quanto disso é verdade, mas não importa). Em uma cena tensa em que Sofia explora o apartamento de Eve, vamos descobrindo mais sobre as duas. Sofia pergunta sobre as fantasias que Eve usa para agradar os clientes (o sobrenome de Eve é Karlo; seria essa uma referência ao Cara de Barro? Eve seria o “Cara de Barro” desse universo? São reflexões que vieram com essa conversa sobre fantasias, mas divago aqui).
Sofia pergunta o que Oz é para Eve e se ele seria o tipo ideal dela. Eve discorda, defende e define Oz, afirmando que, apesar de narcisista, egoísta e assassino, ele cuida das pessoas. Ela coloca Sofia no mesmo patamar de assassina ao mencionar os nomes de mulheres e amigas que o "Hangman" matou. Sofia corrige que não era o "Hangman", mas sim, seu pai. Vendo a surpresa de Eve, Sofia conta como Oz mentiu. Eve, sabendo que Sofia vai matá-la, pede que não machuque suas meninas. Agora, é Sofia quem fica surpresa ao perceber o companheirismo entre Eve e suas garotas, uma família real que cuida uma da outra, apesar das circunstâncias. Diferente delas, Sofia cresceu em um ambiente rico, mas nunca teve uma família de verdade, alguém que realmente cuidasse dela. Como se fosse uma relação sexual, agora é Eve que está dominando, e ainda convence Sofia a não matá-la pois “ela não é assim”. Sofia aceita e finalmente obtém a informação que queria: o esconderijo de Oz. Que cena genial! A tensão é construída de forma magistral, mas o mais importante é o quanto ela contribui para a construção das duas personagens.

Enquanto isso, Oz vai atrás da negociação mais arriscada da série até então. Em um toque inteligente do roteiro, vemos que Oz carrega um carregamento secreto para essa reunião (que dá título ao episódio). Descobrimos que não é um armamento, mas cerveja para um brinde. Com sua lábia, Oz apela para o orgulho das gangues e até mesmo para uma questão social, dizendo que os ricos se odeiam, mas se unem para permanecer no poder,eles têm luz e calor, enquanto todos os outros congelam na escuridão. Ele ressalta que Maroni e Falcone nem conhecem o nome dos que estão nas ruas, morrendo por eles. Com isso, Oz, ou melhor, o Pinguim, conquista novos aliados.

Já em Crowpoint, Victor está com Francis quando a luz retorna. O garoto tenta elevar a imagem de Oz, dizendo que foi ele quem trouxe a luz de volta, mas Francis não se importa e convida Victor para dançar. A câmera se afasta da área iluminada onde os dois estão e revela Sofia nas sombras, segurando um pé de cabra. Se Victor é um Jason Todd para o Pinguim, sabemos que o que vem por aí não será nada bom… um excelente cliffhanger para o penúltimo episódio, que promete ser triste e decisivo no confronto entre Oz e a aliança Maroni-Gigante.

Para quem só se importa com números:
Nota- 8/10
Ficha Técnica:
Título Original: The Penguin – 1X06: Gold Summit
País de Origem: Estados Unidos
Criação: Lauren LeFranc
Roteiro: Nick Towne
Direção: Kevin Bray
Classificação: 16 anos
Duração: 59 minutos.
Elenco:
Colin Farrell
Cristin Milioti
Rhenzy Feliz
Deirdre O’Connell
Clancy Brown
Carmen Ejogo
Michael Zegen
Berto Colón
James Madio
Joshua Bitton
David H. Holmes
Daniel J. Watts
Ben Cook
Jayme Lawson
Theo Rossi
Comments